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O desafio do relativismo cultural (e do subjetivismo)

O relativismo cultural (RC) tem sido defendido, sobretudo, pela conhecida antropóloga Ruth Benedict e pelo filósofo contemporâneo Gilbert Harman. Mas, enquanto forma de compreender a questão dos critérios valorativos, é uma teoria com bastantes limitações, dado que não consegue escapar a críticas muito fortes.
Uma dessas críticas é a de que o RC é incompatível com a tolerância como valor universal. Os adeptos do RC defendem que se percebermos que as culturas são diferentes e que nenhuma é melhor do que outra, então perceberemos que devemos ser tolerantes para com outras culturas diferentes da nossa. Mas isso é compreender, precisamente, que há, pelo menos, um valor – a tolerância – que não depende de nenhuma cultura. Pelo contrário, parece que depende de uma reflexão racional que nos conduz a compreender a verdade do juízo “devemos ser tolerantes”. Neste sentido, o critério para decidir da verdade ou falsidade dos juízos de valor não seriam as convenções sociais (como defende o RC), mas sim a racionalidade – se há boas razões para aceitar determinado juízo de valor (como parece haver no caso do juízo “devemos ser tolerantes”), então é bastante plausível que seja verdadeiro. Portanto, o RC é incompatível com a tolerância como valor universal; ou seja, parece que há aqui alguma objetividade – “devemos ser tolerantes”, porque há boas razões (se as houver) para dizer que devemos ser tolerantes e não porque se convencionou que o devemos ser.
De qualquer modo, tentar defender o RC é um bom desafio – é um bom exercício de pensar de modo diferente, para nos certificarmos se poderá ou não ser, e porquê, uma teoria plausível. Para além disso, o RC, a par do subjetivismo (que, a ser verdadeiro, faria da ética um domínio completamente arbitrário, já que todo e qualquer juízo de valor teria que ser considerado verdadeiro e, portanto, ninguém poderia legitimamente criticar os valores dos outros!), orienta a forma de pensar de muitas pessoas acerca dos valores, que, a maioria das vezes sem grande consciência crítica, não se apercebem das suas limitações e tomam o RC (e o subjetivismo) como a verdade inquestionável, “natural” acerca da atitude valorativa. Convém, por isso, analisar criticamente os seus argumentos e, assim, perceber porque se trata de teorias pouco consistentes.
Veja-se, a este propósito, o capítulo 2 da obra de James Rachels, Elementos de Filosofia Moral (Lisboa: Gradiva, 2004), que ainda é uma excelente introdução para estudantes a estes temas da axiologia e da ética.

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