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Matrix – Uma caverna atualizada

(Texto comparativo entre o filme “The Matrix” e a “Alegoria da Caverna” de Platão)

Enquanto a “Alegoria da caverna” foi escrita pelo filósofo grego Platão e inclui-se na sua obra “A República”, escrita há mais de dois milénios, “O Matrix” é um filme relativamente recente, de 1999, realizado pelos irmãos Wachowski. Considerando (para além da diferença cronológica) que “O Matrix” é uma ficção científica futurista, e que a “Alegoria da Caverna” é um texto filosófico sobre prisioneiros numa gruta, qualquer parecença parecer-nos-ia, pelo menos a uma vista desatenta, pura coincidência. Esta primeira impressão verifica-se errada. Não só ambas as “obras” apresentam estreitas semelhanças, como nenhuma delas é fruto do acaso, como já confirmado pelos realizadores do filme, que de entre as inúmeras influências religiosas, mitológicas, literárias e filosóficas destacadas, referiram a alegoria (da caverna) como tendo um papel especialmente importante. E isto, como estou prestes a demonstrar, nota-se muito. Encontrei aliás, pouquíssimas diferenças a um nível fundamental entre a mensagem do texto e do filme. “O Matrix” é assim, uma alegoria dos tempos modernos, mais fácil de entender e mais “real” para nós, nativos digitais do século XXI, que transmite uma mensagem semelhante à de Platão. Façamos então uma análise e uma comparação mais a fundo.
A “Alegoria da Caverna” retrata a situação de três prisioneiros. Estes haviam estado acorrentados desde a infância, forçados a permanecer e a olhar na direção de uma parede da gruta na qual uma fogueira projetava sombras de todo o tipo de objetos. Estes eram transportados atrás de si por um caminho ascendente no qual existia um muro que impedia as silhuetas humanas de serem projetadas. As pessoas transportando os objetos falavam e o som ecoava nas paredes. No texto de Platão é concluído que os prisioneiros tomavam como real apenas as sombras e que o próprio som ecoado era produzido por elas. Passemos então ao filme: O filme “O Matrix” trata de um mundo pós-apocalíptico, no qual, após uma guerra entre máquinas com inteligência artificial e a humanidade, estas, vitoriosas mas impedidas de obter energia solar, “cultivam” seres humanos, abastecendo-se com a nossa energia térmica e elétrica. Para isto, as máquinas criam uma realidade virtual, o “Matrix”, um mundo no final do séc. XX, onde as pessoas vivem: trabalham, casam, sofremTêm, em suma, direito a tudo aquilo que há de melhor e pior na condição humana.
Talvez agora as parecenças pareçam mais óbvias. Em ambos os casos os personagens são colocados numa ilusão, ilusão esta que é tudo o que eles e conhecem e portanto julgam ser a própria realidade. No filme esta falsa realidade é o próprio Matrix criado pelas máquinas e pelos seus programas, enquanto na Alegoria são as sombras e sons, criados pelas correntes (que impediam o movimento) e pelo fogo da caverna. Isto vai ao encontro da mensagem de Platão e da mensagem filosófica em geral: a da importância do questionamento e da verdade para nos libertarmos das correntes do hábito, do senso comum e daquilo que tomamos como certo. Porque tais hábitos e certezas absolutas, apesar de confortáveis (como estamos prestes a confirmar) levam à ignorância e limitam profundamente a nossa liberdade.
As histórias continuam. No texto de Platão, Sócrates imagina o que aconteceria caso um dos
prisioneiros fosse libertado e forçado a encarar a natureza da realidade superior, a ver os verdadeiros objetos e tudo aquilo que causava a sua ilusão. O prisioneiro não seria capaz de entender, pelo menos num primeiro momento, a natureza da sua condição anterior, muito menos da nova. Iria aliás, conscientemente, rejeitá-la. Haverá maior choque do que crescer certos da natureza do mundo, e ver que, de uma forma tão fundamental, tudo aquilo em que acreditamos e tomamos como certo é uma mentira? Haverá poucas sensações mais nauseabundas, imagino. Ora é isto mesmo que acontece no Matrix. Neo, a personagem principal, é retirado da simulação, tendo que encarar a falsidade do seu mundo e a dolorosa verdade da situação humana, e, tal como o prisioneiro, rejeita inicialmente toda essa ideia. Isto é bem retratado por uma passagem do filme – Neo - “Porque me doem os olhos?”, ao qual Morpheus responde – “Porque nunca os usaste antes”.
É aqui que, na minha opinião, as situações do filme e do texto se separam um pouco. É certo que em ambos os cenários a aceitação da realidade foi dolorosa, mas não por ser pior, por ser diferente. Embora passada essa fase inicial de mudança, venha a aceitação e a compreensão da realidade, não significa que quem por ela passou se sinta afortunado. A ignorância pode de facto, ser uma bênção, e apesar de haver quem repugne a ilusão, há por outro lado, quem repugne a própria verdade. Isto não aconteceria na “Alegoria da Caverna” penso eu, já que um mundo tridimensional e a cores parece-me muito mais interessante do que sombras numa parede. No “Matrix” no entanto, a situação inverte-se. Há quem deseje voltar à simulação, que, não só mais agradável, conseguia, de uma certa forma, ser tão real quanto a própria realidade. Isto mostra que a verdade, embora libertadora, e melhor no verdadeiro sentido da palavra, pode ser melhor ou pior nos nossos sentimentos. Podemos ter saudades ou sentir desdém em relação à nossa condição anterior, de acordo com a natureza da ilusão e da própria realidade. É certo que muitos odiariam a ideia de viverem num mundo digital e controlado por máquinas, mas muitos sentiriam falta do conforto, enquanto, na minha humilde e falível perceção, nenhum prisioneiro sentiria falta das suas sombras e correntes após a fase de “desmame”.
Sócrates continua dizendo que, o prisioneiro, lembrando-se da sua situação anterior, faria tudo para libertar os seus companheiros da ilusão. É isto que faz Neo e toda a tripulação da nave em que se encontravam. Estas pessoas simbolizam os filósofos, que com a sua atitude crítica e racional nos tentam libertar das ilusões e correntes que toda a vida nos foram impostas. Nós, “comuns mortais”, somos representados pelos restantes prisioneiros e pelos habitantes do Matrix. Sócrates vai ainda mais longe, e imagina como reagiriam os presos ao ver o estado do seu antigo companheiro, como a vista se lhe tinha “estragado”, e como estava, de uma maneira geral, diferente. Por muito que ele lhes explicasse a sua situação e como estava agora mais próximo da realidade, os seus companheiros tomariam a sua diferença como defeito. Olhariam a mudança com maus olhos. Não se lhes pode julgar, já que é exatamente isso que nós fazemos, fugindo de tudo o que ponha em causa a nossa opinião, a nossa confortável realidade, conotando negativamente a diferença e descredibilizando quem o é. E por isto não nos atrevemos, muitas vezes, a olhar além. Não nos atrevemos a tomar o comprimido vermelho (do filme “O Matrix”) nem a sair da gruta da Alegoria. Não nos atrevemos a percorrer o desconfortável, trabalhoso e infinito caminho da verdade, mas que marca a diferença entre vivermos, ou deixar que vivam por nós. E é esta ideia que quer a alegoria (da caverna) quer o filme transmitem de uma forma excelente.
Rodrigo Saraiva, 10º A, n.º 24.

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